sábado, 29 de abril de 2017

De brioches e outros quetais no Brasil de hoje

Do Blog de Márcio Valley: 

A greve geral e o ponto de convulsão social 
 

O movimento das placas tectônicas na crosta terrestre é produzido pelo acúmulo de tensão entre elas que, em determinado momento, alcança um nível insuportável e determina o terremoto que faz as placas se moverem, uma para cima e a outra para baixo. Esse movimento, ao mesmo tempo que destrói parte da superfície do planeta, faz surgir uma nova, produzindo uma reacomodação das forças e inaugura um novo tempo de paz geológica. Até que novo terremoto a interrompa.
As forças que movimentam os poderes da sociedade agem de forma similar. Ocasionalmente, um terremoto social produz uma modificação no cenário dos macropoderes que dominam a política. Entendam que não uso a palavra "política", aqui, como sinônimo de "política partidária-eleitoral". A verdadeira política é muito mais ampla e certamente seus maiores centros de poder não se encontram em Brasília. Um ou outro se localiza em bairros elegantes de cidades brasileiras, como o Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.
Vou dar um exemplo de movimento tectônico social.
Em Niterói, minha cidade natal, existem dois fatos históricos que provavelmente jamais serão esquecidos pela população. Um deles não tem nada a ver com o assunto: aqui ocorreu o maior incêndio da história do Brasil, em número de vítimas fatais, o incêndio do Gran Circo Americano. O outro é o que nos interessa: um exemplo histórico de movimentação da placa tectônica social. Antes da existência da ponte Rio-Niterói, praticamente toda a ligação com o município do Rio de Janeiro era realizada através do serviço de barcas. Até o ano de 1959, esse serviço de transporte marítimo estava nas mãos de um grupo privado, o grupo Carreteiro. Os proprietários só pensavam em enriquecer e, enquanto acumulavam mais e mais riquezas, adquirindo mansões e fazendas aos olhos do povo, prestavam serviços cada vez piores por preços cada vez maiores. Em maio daquele ano, após mais uma greve dos marítimos, utilizada como justificativa para mais um pedido de aumento da tarifa pelos proprietários, a população se viu concentrada em frente à estação das barcas, sem condição de embarcar e sendo violentamente reprimida por militares que foram ao local para tentar contornar o problema. Não era pouca gente, pois as barcas transportavam metade dos niteroienses da época. Pois bem, após assistir várias pessoas sendo agredidas pelos militares, um dos populares teve a ideia de arremessar uma pedra em direção a uma das vidraças da estação hidroviária. Foi o que bastou para iniciar uma violenta catarse popular, que terminou com a estação completamente destruída. Não satisfeitos, os populares se dirigiram ao escritório da empresa, em local próximo, e também o destruíram. Ainda com gosto de sangue na boca, a massa popular iniciou um caminhada de três quilômetros em direção à residência de um dos sócios da empresa. Avisados, ele e a família sabiamente fugiram antes da chegada dos populares. A casa foi saqueada, o que não foi levado foi destroçado, com os móveis luxuosos sendo lançados das janelas superiores e do telhado. Depois, foi incendiada. No dia seguinte, a família Carreteiro não era mais a proprietária da empresa, que foi estatizada. O episódio ficou conhecido como a "Revolta das Barcas" e Niterói, hoje uma cidade de classe média semi-dominada por um alinhamento ideológico "coxinha", foi consagrada na ocasião como a "pequena Bastilha".

O que isso nos ensina? A lição mais importante é que há um limite contingencial insuperável para a imposição de sacrifícios e espoliações à população, limite esse dependente de um alinhamento oportuno de inúmeros fatores. Ainda que necessárias, reformas estruturais capazes de redesenhar o modelo socioeconômico devem ser produzidas de forma sempre atenta ao humor da população, que é, na verdade, a origem do poder. Lição não aprendida por Maria Antonieta, na leitura da lenda urbana que circula sobre os croissants.
Impor uma sequência de graves reduções de direitos, que atingem indistintamente as classes sociais, sem uma discussão ampla na sociedade, sob uma embarcação de justificativas que fazem água por todos os lados e, pior, por um governo sem a legitimidade conferida pelo voto, é fazer um convite à convulsão social.
O mundo assiste, atualmente, à ascensão de uma direita raivosa, elitista e preconceituosa. No Brasil, não é diferente. Por essas bandas, os símbolos desse posicionamento abjeto, que no entanto já ousa dizer seu nome, são Bolsonaro e Dória. Essa direita fascistoide – além de golpista em terras tupiniquins – corre contra o tempo, auxiliados na tarefa por uma das piores representações do parlamento e do STF que já existiram na história nacional, pressionando pela mitigação extrema ou mesmo extinção dos direitos sociais e das garantias e liberdades individuais conquistados desde a promulgação da Constituição de 1988.
Forma-se, de forma ainda velada, um acúmulo elevado de tensões sociais bem capazes de provocar um terremoto político-social no país. Como dito, os primeiros sinais foram as invernadas de junho de 2013.
O sintoma mais relevante da aproximação de um distúrbio social, segundo penso, surge da constatação popular de inexistência de alternativas, ou seja, quando o indivíduo não encontra solução para a agressão que atribui ao Estado. Mesmo indefesos camundongos atacam quando não há fuga possível.
O segundo fator, por ordem de importância, ocorre quando a sonegação de direitos atinge conjuntamente as classes desfavorecidas e a classe média, exatamente o que ocorreu no caso da Revolta das Barcas. Não há força estatal de violência capaz de deter a massa quando a classe média se une à dos pobres na reivindicação de algum interesse. As invernadas de junho de 2013 são uma exemplo disso. Novamente um exemplo de protestos populares fomentados por valores abusivos de tarifa de transporte coletivo, as Jornadas de Junho uniram, principalmente, estudantes oriundos de todas as classes sociais, a maioria das classes média e pobre. Exemplos maiores de que os governos são incapazes de prever – ou minimamente desleixados quanto – as consequências da imposição de sacrifícios desmedidos e injustos ao povo são as revoluções Francesa e Russa, basicamente resultados de crises de abastecimento de alimentos, provocadas pela insanidade estatal, que atingiram, não somente os desfavorecidos, mas também as classes intermediárias.
A greve geral de hoje (28/4/2017), é a primeira grande sinalização para a classe dominante de que algo não vai bem no seio da população. É algo como se o povo estivesse advertindo: tomem cuidado, queimaremos suas empresas e suas mansões. Não faço apologia disso, apenas advirto para a forma como entendo os sinais.
Tudo aquilo que vier a acontecer, daqui em diante, ficará por conta da atuação de nossas Marias Antonietas. Se agirem com idêntico sarcasmo, oferecendo brioches inexistentes a quem tem fome de pão, o circo irá pegar fogo com muito mais violência do que a do incêndio do Gran Circo Americano.
O fator "prisão de Lula" é capaz de se tornar o catalisador desse terremoto.
Uma de nossas mais evidentes Marias Antonietas, o juiz Sérgio Moro vem, há anos, brincando com fogo na forma como trata processualmente o ex-presidente Lula. Submeteu um ex-presidente superpopular de uma das maiores nações do mundo ao inimaginável constrangimento de ser conduzido à força para depoimento, sem que ele nunca tivesse se oposto a ser ouvido. Moro literalmente fez muito, muito pouco da opinião pública. Ninguém ousaria negar que Lula é um político de prestígio junto à população, que goza da simpatia de cerca de um terço dos eleitores do país. E Moro não errou por tratá-lo igual a qualquer acusado, mas diferente. Sim, porque qualquer ladrãozinho tem o direito de se manter calado na audiência onde será ouvido como acusado, dado que é princípio básico de direito que ninguém é obrigado a se defender. Se pode permanecer calado, para que o constrangimento público? E outra: mesmo testemunhas não são conduzidas coercitivamente senão após deixarem de comparecer à audiência para a qual foram intimadas. Assim, outra conclusão racional não há senão a de que Moro pretendeu apenas ridicularizar e constranger Lula perante os cidadãos, um comportamento considerado insuportável para os eleitores daquele que é considerado, segundo pesquisas de vários institutos diferentes, um dos maiores e melhores presidentes da história do país. Aliás, é hoje o candidato que mais provavelmente seria eleito para presidente da República em 2018, o que reforça a importância de sua representação no imaginário popular, fato que Moro deveria, como autoridade pública, adotar a cautela e o decoro de respeitar. Ao agir como agiu, com a atitude blasé adotada pela rainha francesa, Moro passa idêntica ideia: a de que se considera, por deter fatia considerável do poder público (ela, rainha, ele, juiz), acima dos interesses do povo, podendo agir sem consequências. Na verdade, até agora as instituições judiciais superiores, salvo raras exceções, a ele tem dado suporte para pensar assim.
Além disso, com tantas revelações bombásticas sobre corrupções que chegam a valores incalculáveis, Moro direciona a maior atenção da Lava Jato ao que é percebido por parte substancial do povo como criações fantasiosas ou desimportantes, como o tríplex e o sítio de Atibaia. Das dezenas de testemunhas ouvidas, nenhuma – repito, nenhuma – foi capaz de provar que tais propriedades sejam de Lula. Pelo contrário, diversas já afirmaram que não são. Ainda assim, prossegue Moro em sua sanha persecutória. Todos sabem que irá condenar Lula, com ou sem prova.
O problema, para Moro, é que o caso de Lula de forma nenhuma será recebido como o de Mateus Coutinho de Sá. Ex-executivo da OAS, Mateus foi condenado por Moro em sentença na qual afirmava existir "prova robusta" de culpa. Ficou um tempo preso, durante o qual ficou desempregado e perdeu a família, pois, certamente por conta da pressão da prisão e da opinião pública, se separou da mulher e deixou de ter contato com a filha. Posteriormente, quando já destruído por Sérgio Moro, foi absolvido pelo TRF-4, que declarou a ausência de provas. É importante destacar que o TRF-4 mantém praticamente todas as decisões de Moro, mesmo as que são contrárias ao Direito – já alegaram que a Lava Jato é uma ação penal de exceção e, por isso, pode se exceder em relação ao Direito –, de modo que, para ter concluído pela ausência de prova é porque essa carência era gritante. Repito: um inocente perdeu dinheiro, emprego e família pela atuação desastrosa e irresponsável de um juiz, Digo irresponsável porque, de fato, nenhum juiz pode ser responsabilizado pela interpretação que confere ao acervo probatório, ainda que prova nenhuma exista. Trata-se de senha certa para a ausência de impessoalidade, o que tentou ser corrigido pelo bravo senador Requião, mas que não seguiu adiante ante a grita dos prejudicados, inclusive a do próprio Sérgio Moro.
Todavia, dificilmente um erro dessa magnitude será admitida, não pelo TRF-4 ou pelos tribunais superiores, mas por grande parte da população. Não haverá como ocultar do povo os detalhes do processo. É bom que as Marias Antonietas dos tribunais estejam atentas – como dizem estar quando é para condenar políticos de esquerda – aos clamores populares.
A febre, como mostra a greve geral de hoje, já sinalizou para o agravamento da doença.

Nossas pomposas Marias Antonietas deveriam perceber os sinais e cuidar para que não faltem brioches. Brioches em falta, como testemunhou a França, por vezes causa incêndios, destruições e guilhotinamentos.
http://marciovalley.blogspot.com.br/2017/04/a-greve-geral-e-o-ponto-de-convulsao.html#more

A globo posta a nu

  O blog Cinegnose faz uma análise de técnica jornalística sobre a postura da Rede Globo diante da Greve Geral que ao contrário do que pretendia, deu certo:

 Globo tenta abafar o barulho do seu silêncio na greve geral

por: Wilson Roberto Vieira Ferreira 


A Globo, acompanhada do restante da mídia corporativa, ressente-se de um cada vez mais grave processo de negação da realidade. Os sintomas são cada vez mais agudos, como demonstrou o silêncio dos últimos dias sobre a articulação da greve geral pelas centrais sindicais e movimentos sociais. Um silêncio bem barulhento, pois revelou a sua autoconsciência do poder de duas armas semióticas que sempre dispara em contextos de desestabilização política: a “profecia autorrealizável” e o “efeito copycat”. O constrangimento e “saia justa” dos apresentadores nas primeiras horas da manhã de sexta-feira também revelou uma aposta: "as nossas armas semióticas são tão poderosas que, se ficarmos em silêncio, nada vai acontecer! Mas a negação tautista da mídia corporativa descobriu da pior forma possível que existe vida lá fora, no deserto do real.

Como de hábito esse humilde blogueiro enfrenta a perigosa missão de entrar em contato com o material altamente tóxico e volátil emitido diariamente pela mídia corporativa, em particular com as bombas semióticas disparadas pela vetusta TV Globo.

Como acompanhamos nos últimos tempos, uma emissora cada vez mais fechada em si mesma e alheia a transformações ao redor, inebriada com o seu poder de impor agendas, transformar interinos em presidentes e turbinar o narcisismo de policiais federais, juízes do STF e forças tarefas de moralização – chamamos isso de “tautismo” (tautologia + autismo), a doença dos sistemas que se fecharam em si mesmos - sobre esse conceito clique aqui.

Mas ontem, dia 28, foi no mínimo divertido acompanhar a verdadeira saia justa a que se submeteram os apresentadores de telejornais da grande mídia nas primeiras horas da manhã. Todos pareciam ser pegos de surpresa: terminais de ônibus vazios? Pneus queimando nas estradas? Trens e metrôs parados? O que está acontecendo?

Enquanto a Band mantinha o tom monocórdico que sustenta até agora (o “desafio” dos trabalhadores em chegar ao trabalho numa greve que só atrapalha), na Globo os momentos mais impagáveis ficaram com a dupla Rodrigo Bocardi e Gloria Vanique. Enquanto a apresentadora se agarrava na pièce de resistance do aeroporto de Congonhas que mantinha a normalidade dos pousos e decolagens, Bocardi tentava minimizar as imagens de incêndios e barricadas em ruas e estradas: “Não é uma greve geral! São apenas ALGUNS sindicatos... quer dizer, muitos...”, titubiava.

Bocardi: "sexta-feira amanheceu um dia diferente"

O termo “greve geral” era evitado. Falava-se em “manifestações”, “sindicatos” e “greve nos transportes”. A Globo ainda apostava no esvaziamento da greve geral. Só mais tarde, quando perceberam a intensidade das mobilizações e o alcance nacional, não teve jeito e começaram a anunciar a temida expressão “greve geral”.

O fato é que durante toda a semana simplesmente ignoraram o tema. Nenhuma notícia sobre a convocação da greve pelas centrais sindicais em protesto contra as reformas trabalhistas e previdenciárias impostas pelo governo do desinterino Temer.

Apesar do movimento ter alcance nacional, nem sob o ângulo da prestação de serviços para os telespectadores a grande mídia tratou o tema: haverá transportes na sexta-feira? Como ficarão os serviços públicos? Como sairei de casa?

Profecia Autorrealizável e a linguagem performática


Um silêncio “barulhento” porque repleto de significados: em primeiro lugar revela a parcialidade e partidarismo da mídia corporativa que insiste em fingir ser a vestal da ética e da imparcialidade jornalística.

E segundo, porque revela a autoconsciência do poder de duas armas semióticas que a própria Globo utilizou nos últimos anos para a desestabilização política e econômica que culminou no golpe: a profecia autorrealizável e o efeito copycat.  


A mídia corporativa (e principalmente a TV Globo pelo monopólio da audiência) sabe que numa sociedade midiatizada a informação é muito mais do que um simples meio de transmissão de conteúdos - . A linguagem não apenas representa, mas também transforma-se em ação, performatiza, faz coisas serem realizadas.

Por exemplo, o leitor deve lembrar da famosa sequência do filme Matrix quando Neo (Keanu Reeves) vai visitar o Oráculo e recebe uma advertência: “cuidado com o vaso”. “Que vaso?”, pergunta surpreso Neo, virando-se e esbarrando no vaso que cai para se quebrar no chão. O Oráculo não sabia que Neo quebraria o vaso. Mas foi sua advertência que fez a queda do vaso acontecer. Em outras palavras, o Oráculo não representou o futuro – fez o futuro acontecer através da função performativa da linguagem.

Como autores como Wittgenstein e Austin apontavam, a pragmática antecede a semântica. Antes do signo representar ele pede uma ação – leia WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas, Vozes e AUSTIN, J. Quando Dizer é Fazer, Artes Médicas, 1990.

A grande mídia nos últimos quatro anos bateu diariamente, manhã tarde e noite, o bumbo de uma suposta crise econômica descontrolada: desemprego, inflação, dívida pública, apagões etc. Se até 2012 o País tinha um “crescimento econômico invejável” e “decolava” com a entrada nos BRICS, como observava a revista The Economist, repentinamente tudo mudou como se tivesse virado um disco de vinil para o lado B. Da euforia para a catástrofe de uma hora para outra.

De tanto repercutir essa agenda, um dos quesitos essenciais para a consumação do golpe político, os agentes econômicos parece que acreditaram e a crise autorrealizou-se – contando ainda com o auxílio luxuoso da Lava Jato que destruiu a cadeia produtiva do óleo, gás, setor naval e construções gerando de uma hora para outra 600 mil desempregados.

Portanto, a grande mídia sabe que noticiar a articulação da greve geral pelos sindicatos e movimentos sociais poderia criar o efeito recursivo ou autorrealizável. Foi nesse silêncio que a TV Globo apostou. De forma alucinadamente tautista, as salas de guerra dos aquários de redação da Globo imaginaram: se ficarmos em silêncio, nada vai acontecer!

Mas a negação tautista da mídia corporativa descobriu da pior forma possível que existe vida lá fora, no deserto do real.


O efeito de imitação


Também Globo e a grande mídia que a acompanha sabem que, além do efeito autorrealizável das notícias, há também o chamado “efeito copycat”. Um efeito residual de imitação que acompanha a personificação das notícias - ou um tipo de jornalismo que procura “personagens” ao invés dos fatos.

Na ânsia em criar uma atmosfera de desestabilização política, o noticiário global deu espaço para manifestações de intolerância, ódio e preconceitos. Mesmo muitas vezes condenando, os telejornais abriram uma verdadeira Caixa de Pandora – o efeito copycat fez a psicologia do fascismo sair das sombras da vergonha para a claridade das telas de TV com bolsonaros e felicianos.

Seguido pelo efeito de imitação de protofascistas em redes sociais, espaços públicos das ruas, estações de metrô e manifestações políticas.

É visível o esforço da emissora em não personificar a greve geral – não há líderes ou pessoas, apenas “centrais sindicais”, “vândalos”, “grupos” ou “manifestantes”. A mídia corporativa sabe muito bem o alcance semiótico das armas que tem nas mãos e que sempre a utiliza nos momentos-chave de ação política: a profecia autorrealizável e o efeito copycat.

Metalinguagem e “mea culpa”


A Globo não foi pega de surpresa pela greve geral em si. Mas ficou surpresa em descobrir que existem movimentos autônomos lá no deserto do real, para além do sistema que criou fechando-se em si mesma.

Para reverter essa ironia patética, a Globo se viu obrigada a fazer uma caprichada cobertura ao vivo da greve geral ao longo de todo o dia – com direito a acompanharmos repórteres tossindo e sufocando pelo efeito dos gases das bombas lançadas pelos pelotões de choque da polícia.


Mais além, o Jornal Nacional tentou fazer uma espécie de metalinguagem da cobertura da greve geral como uma espécie de mea culpa do porquê manteve-se em silêncio todo esse tempo. “Todos os programas da manhã abriram espaço para flashs com informações...”, relatou a apresentadora Renata Vasconcellos como se, repentinamente por encanto, a Globo acordasse e desse um “show” de cobertura jornalística.

É o mesmo “sentimento de culpa” que parece dominar a emissora todas as vezes em que o tiro sai pela culatra, sempre produzindo minisséries sobre a época da ditadura militar para expiar o seu passado de franco apoio ao golpe de 1964..

Quando viu que o candidato que apoiou, Collor de Melo, estava com os dias contados para o impeachment, colocou no ar em 1992 a série Anos Rebeldes para criar a falsa imagem da imparcialidade sobre uma história de amor em plena repressão da ditadura militar.

Agora, a Globo lança outra minissérie, Os Dias Eram Assim, novamente sobre o tema da repressão militar em um momento agudo de críticas por todos os lados sobre a participação decisiva da emissora no golpe político de 2016.

Como sempre, a Globo tenta exorcizar as “hordas bárbaras” que avançam do deserto do real. Porém, dessa vez todo aparato metalinguístico não será suficiente para abafar o barulho do seu silêncio.

O golpe da reforma trabalhista...

Lúcida entrevista de um advogado trabalhista à GloboNews que, certamente não o fará mais convidado para explicar os fatos na sua inteireza. 


Creio que por esta a editoria política da emissora não esperava mesmo...

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Quanta diferença...

Uma antiga propaganda de produto para cabelos louvava a diferença entre as madeixas de uma linda senhorinha. Hoje ao ver na rede uma publicação comparativa dei de lembrar do anúncio para ressaltar quanta diferença entre a mídia brasileira e a que faz jornalismo no exterior. 







É para dizer mesmo: quanta diferença!!!

Oportuno convite

Está lá na rede: 

 
 
 
 

O texto completo é do Portal Brasil 247


247 – Enquanto 92% dos brasileiros rejeitam Michel Temer e engrossam o coro do 'Fora Temer', o funcionário de um cemitério fez um protesto inusitado e pintou a parede com o inverso: 'entra Temer'.

Abaixo, informações sobre a maior greve geral da história do País, contra o governo mais impopular de todos os tempos:

Greve geral: centrais sindicais dizem que paralisação foi 'a maior da história'
 
São Paulo, 28/04/2017 - As centrais sindicais que organizaram as paralisações de hoje afirmam que não contabilizaram números de adesões, mas, segundo a Força Sindical, passou de 40 milhões de pessoas. Dados disponíveis pelas entidades indicam que a última grande greve no País, em 1989, teve 35 milhões de adesões.


"Foi a maior greve da história", afirma o presidente da CUT, Vagner Gomes. "Foi uma resposta ao Temer e ao Congresso de que a sociedade não concorda com o fim da CLT, com a terceirização e o fim da aposentadoria."

Segundo ele, a partir da próxima semana os sindicalistas "vão ocupar Brasília" para convencer os senadores a votarem contra a reforma trabalhista, que esta semana foi aprovada no plenário da Câmara.

O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, disse que o movimento de hoje foi um recado para que o governo abre negociações para se fazer uma reforma "civilizada", que mão seja feita só pelo governo e o Congresso, mas com a participação dos trabalhadores.

Em resposta a críticas de que a greve só ocorreu porque houve piquetes em importantes vias, com pneus incendiados, Gomes diz que é assim que ocorre na França, na Inglaterra, no Brasil e em outros países. "Greve não é um acordo entre a sociedade e o governo, é um confronto. Se o governo fizesse as coisas certas isso não ocorreria.

Mais que mil palavras...

O "ministro" Carne-Fraca disse de greve geral "pífia"... Não é o que mostra a foto da Folha de S. Paulo tirada no Largo da Batata na capital paulista, no início da noite




Isso mostra que nada é mais certo do que o velho adágio do jornalismo de que "uma imagem vale mais que mil palavras"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Caras de pau, mesmo...

Texto de Aldo Fornazieri publicado hoje no Jornal GGN: 






A desfaçatez como método de governo

por Aldo Fornazieri

Desfaçatez é a qualidade de um desfaçado, daquele que não sente nem constrangimento e nem vergonha pelos seus atos condenáveis, publicamente assumidos. Trata-se daquele que, no senso comum, é conhecido como um cara de pau. Pois bem: Temer e, de certa forma, boa parte das autoridades que ocupam cargos superiores nos altos escalões dessa República destroçada, assumiram a desfaçatez como método de conduta e de governo.
Não se trata mais de esconder a verdade, de enganar, de fazer um jogo ardiloso das aparências. Trata-se de assumir a corrupção e o crime como predicados normais de quem governa. Ser acusado, denunciado, processado é como que uma exigência curricular para se tornar ministro, ocupar os altos cargos de comissões no Congresso, ser presidente da Câmara e do Senado, assumir um posto de  conselheiro ou ministro de Tribunais de Constas, se tornar juiz do Supremo Tribunal Federal. Estes requisitos curriculares estão se espalhando nos estados e nos municípios e nos três poderes da República.

O descaramento e a impudência com que se manifestam autoridades, senadores, deputados e ministros chega a ser espantosa. Em democracias desenvolvidas, suspeitas e denúncias são suficientes para que uma autoridade pública se afaste do cargo ou renuncie ao mandato. Aqui, Temer avisa que denunciados e delatados permanecem no cargo. 

Veja-se o caso exemplar de Eliseu Padilha, hoje o ministro mais poderoso do governo. Além de denúncias relativas à Lava Jato teve milhões de reais bloqueados por um juiz do Mato Grosso, sob a acusação de ter cometido crimes ambientais. No Rio Grande do Sul e no STJ já foi condenado em definitivo a pagar um montante de R$ 393,76 a um corretor e vem protelando o pagamento. Naquele mesmo estado é acusado de grilagem de terras e é réu em processo por ter beneficiado uma universidade privada - a Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) em troca de pagamentos milionários a duas empresas de consultoria do ministro, a Rubi e a Fonte. Padilha já ultrapassou o próprio critério inescrupuloso estabelecido por Temer e, mesmo assim, continua sendo o ministro mais poderoso da Esplanada, proclamando, com desfaçatez, que o governo usa como método transformar desqualificados e despreparados em "notáveis" ministros, como foi o caso do ministro da Saúde, outro acusado de ter cometido irregularidades no Paraná. 

A desfaçatez política e a corrupção estão destruindo o conteúdo moral das instituições e da sociedade. A falta de escrúpulos, de vergonha e de decorro transformou as instituições públicas num escombro de obscenidades. A honradez, a dignidade e a moralidade foram sacrificadas na corrida em busca do foro privilegiado, esse instrumento abjeto que se tornou abrigo de criminosos num Supremo Tribunal Federal que é um cemitério de processos contra corruptos. Hoje não resta dúvidas de que uma das maiores cobiças do núcleo duro dos golpistas dos partidos que fazem parte do condomínio governamental era colocar-se ao abrigo do foro privilegiado.

A nova face do mal

O atual governo é a expressão de uma nova forma de banalização do mal, não daquela forma referida ao totalitarismo e à sua violência desmedida, estudada por Hannah Arendt. A banalização do mal promovida pelo atual governo é francamente grotesca e despudorada, é a violência contra as convenções morais e civilizatórias, é a cruzada para mostrar que ser honesto é uma frivolidade de ingênuos e de despreparados para o exercício do poder político, pois este exige profissionais da corrupção. Os outros que caíram em função de acusações de corrupção teriam caído por serem amadores. 

Somente os profissionais, identificados no atual grupo de poder, teriam capacidade para estabilizar a governança corrupta no país, mantendo-o prisioneiro do atraso, da injustiça, da desigualdade e da pobreza às custas da riqueza de poucos. Os poucos, os grandes, os ricos teriam como direito consuetudinário os faustos proporcionados pela corrupção, as suas vidas de vícios, de esbanjamentos que têm em Sérgio Cabral um espécime exemplar deste tipo de conduta.

Para esses banalizadores do mal, não importam as misérias do povo, o desemprego, nos novos milhões de pobres, a indústria, a tecnologia, a ciência, a pesquisa e a cultura sem futuro. Quanto mais longe da modernização o país se encontre, mais longo será o império da corrupção, mais tempo haverá para saquear os cofres da res publica e para orientar os recursos dos orçamentos públicos em benefício dos mais ricos.

Este novo mal radical não vem pelos tanques, pelas bombas e pelos bombardeios. Ele vem pelo desemprego, mata à míngua, asfixia a velhice, retira a potência da esperança dos jovens, renega os direitos das mulheres e dos negros, drena o sangue dos pobres para pagar juros aos bancos e refestelar as mesas e as extravagâncias dos ricos. Este mal radical sonega os remédios e os leitos hospitalares, fecha escolas, põe cancelas ao acesso à educação superior aos pobres e destrói os centros de pesquisa.

Esta nova banalização do mal acredita que não tem limites no movimento de tornar a república e a democracia em letra morta, em formas sem conteúdo, em domínio exclusivo do capital. Este mal cria campos de concentração e de extermínio mentais e vivenciais, torna as pessoas supérfluas, não só pelo desemprego, mas pelas vidas vazias, pelas angústias e pelos medos de vidas sem futuro.

Hannah Arentd tinha razão: o mal radical não vem de figuras mitológicas que têm projetos e poderes fabulosos. Ele vem de figuras banais, até mesmo medíocres. Este governo está eivando de figuras banais, desprovidas de qualquer senso se grandeza. Figuras como Temer, Jucá, o gato angorá, os Moraes, os Quadrilhas, e tantos outros, todos acompanhados por um grande séquito de deputados senadores que o mundo conheceu bem suas índoles no fatídico 17 de abril de 2016.

A questão desta nova banalidade do mal não é apenas moral sem deixar de ser moral. Ela é política e remete para a necessidade de compreender como o Estado brasileiro, ao longo dos tempos, produziu e vem produzindo uma elite política e uma elite econômica que, indubitavelmente, querem o mal do povo e o atraso do país. A resiliência desse atavismo perverso pode ser encontrada na genética maldosa das nossas elites que nunca se habilitaram para a grandeza e para a responsabilidade, mas que fizeram do assalto, da violência, da expropriação e do saque um método para governar para poucos.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política.